Faltando poucos dias para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro, religião e o rótulo "comunista" se tornaram armas centrais na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Pesquisas mostram um Brasil dividido por fé: segundo o Datafolha, entre católicos Lula tem 43% contra 32% de Flávio, e entre evangélicos o quadro se inverte, com Flávio em 48% contra 26% de Lula. Nessa base dividida, as duas campanhas mobilizam acusações — e também circulam boatos que atingem os dois lados.
O ataque de Flávio: "regime comunista"
Em comício em Chapecó (SC), no dia 19 de setembro, Flávio Bolsonaro afirmou que Lula quer "implementar um regime comunista ditatorial" no país, sem apresentar provas da acusação. Na mesma fala, o candidato do PL classificou como uma ameaça à liberdade religiosa declarações recentes de Lula sobre a Igreja Católica. Dias antes, em encontro com lideranças evangélicas no Palácio do Planalto, Lula havia dito que a Igreja Católica "vai continuar passando dificuldade" enquanto mantiver o celibato sacerdotal e não permitir a ordenação de mulheres como padres e bispas — fala que gerou reação de líderes religiosos e foi incorporada ao discurso de Flávio contra o presidente.
A munição usada contra Lula
Para reforçar a acusação de comunismo, apoiadores de Flávio recorrem a uma fala real, mas antiga: em dezembro de 2023, na abertura da 4ª Conferência Nacional da Juventude, Lula comemorou a chegada de Flávio Dino ao Supremo Tribunal Federal (STF) dizendo ter colocado na Corte "um ministro comunista, um companheiro da qualidade do Flávio Dino". Dino foi filiado ao PCdoB antes de migrar para o PSB e já se declarou publicamente "comunista, graças a Deus" em diversas ocasiões — mas costuma explicar que entende o termo como um "sistema de crenças" ligado a valores de partilha, solidariedade e justiça social, e não no sentido tradicional da ideologia. Essa explicação do próprio Dino é frequentemente omitida quando a frase de Lula é reaproveitada como munição de campanha. Circulam ainda nas redes textos e vídeos que distorcem esse episódio de 2023, atribuindo-o a um evento diferente e usando-o para insinuar, de forma manipuladora, que o eleitor de Lula estaria prejudicando a si mesmo. Trata-se de desinformação, e o Olho Neles optou por não reproduzir os detalhes desse conteúdo.
A munição usada contra Flávio
Do outro lado, viralizou nesta semana um boato de que a campanha de Flávio Bolsonaro articulava retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação partiu de um comentário da GloboNews sobre um projeto de lei engavetado havia 18 anos — comentário tirado de contexto, pelo qual a emissora depois se retratou publicamente. A polêmica ganhou novo fôlego quando o ministro André Mendonça, vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de publicações nas redes que associavam Flávio ao suposto plano, entre elas uma postagem do humorista Antonio Tabet. No último domingo, o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou a decisão de Mendonça, considerando que ela representava uma ameaça à liberdade de expressão, já que as publicações não citavam nominalmente o candidato ou sua família. Flávio chamou o episódio de fake news.
Desinformação nos dois sentidos
O caso da padroeira e a distorção da fala de Lula sobre Dino mostram como o tema religião e comunismo virou terreno fértil para conteúdo manipulado contra as duas campanhas. Em ambos os casos, uma declaração real ou um comentário tirado de contexto foi reembalado nas redes sociais para parecer mais grave — ou mais comprometedor — do que o que de fato foi dito.
E agora?
A eleição segue para o primeiro turno em 4 de outubro, com possível segundo turno em 25 de outubro caso nenhum candidato alcance maioria dos votos válidos. Nos próximos dias, a tendência é que o tema religioso continue central: bispos ligados à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), incluindo a Regional Norte 1, que reúne dioceses do Amazonas e de Roraima, divulgaram vídeos pedindo "voto pela democracia" e defendendo a soberania nacional e a proteção da Amazônia — sem citar nominalmente nenhum dos dois candidatos. A própria presidência da CNBB reforçou que a Igreja não apoia candidatos e alertou contra o uso político da fé.
Por que isso importa pra você
Acusação não é fato, e uma frase fora de contexto pode virar arma poderosa nas redes sociais nas últimas semanas antes da votação. Separar o que cada candidato de fato disse — e quando disse — da retórica de campanha e dos boatos que circulam sobre ambos é um exercício que cabe a cada eleitor fazer antes de decidir seu voto.
Com informações de: Poder360 (https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/flavio-diz-que-lula-quer-implementar-regime-comunista-no-brasil/ e https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-defende-fim-do-celibato-na-igreja-catolica/), Correio Braziliense (https://1news.correiobraziliense.com.br/noticia/888661/noticias/pesquisa-datafolha-mostra-segmento-em-que-flavio-bolsonaro-vence-lula-de-goleada-25092026), Agência Pública (https://apublica.org/nota/nossa-senhora-aparecida-boato-sobre-padroeira-chega-ao-tse/), Estado do Pará Online (https://estadodoparaonline.com/religiao-volta-ao-centro-da-eleicao-apos-polemica-envolvendo-flavio-bolsonaro-e-nossa-senhora-aparecida/) e Correio Braziliense (https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/09/7507294-presidente-da-cnbb-reforca-que-igreja-nao-apoia-candidatos.html).
