Tem coisa que o Brasil faz muito bem: iluminar prédios. Setembro Amarelo, Outubro Rosa, Novembro Azul — a arquitetura pública brasileira é talvez a mais colorida do mundo. A questão que o Olho Neles coloca, com respeito e sem cinismo barato, é simples: e depois que a luz apaga?

O que aconteceu

O Congresso Nacional ficará iluminado de amarelo até domingo, dia 13, em alusão à campanha Setembro Amarelo, dedicada à prevenção do suicídio e à valorização da vida. A iniciativa não é apenas simbólica na fachada — ela coincide com uma movimentação concreta dentro das comissões do Senado.

Na mesma semana, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) realizou uma audiência pública sobre prevenção ao suicídio, valorização da vida e políticas de saúde mental — três temas que, juntos, formam um dos debates mais urgentes e menos financiados da saúde pública brasileira.

A iluminação especial foi solicitada em conjunto pelo Ministério da Saúde, pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS) e pelo deputado federal Daniel Agrobom (PSD-GO). A informação foi divulgada pelo Senado Federal em nota oficial.

Por que isso importa — de verdade

O suicídio mata, em média, mais de 14 mil brasileiros por ano, segundo dados do Ministério da Saúde. É uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Não é pauta menor. Não é pauta de nicho. É uma crise silenciosa que disputa espaço com a barulheira cotidiana de Brasília — e quase sempre perde.

Nesse contexto, ver a CDH dedicar uma audiência ao tema e parlamentares de diferentes espectros — sem entrar no mérito político de cada um — se unirem em torno de uma causa de saúde pública é, objetivamente, um sinal positivo. Vale registrar sem ironia.

O símbolo e a substância

Aqui mora o ponto de atenção legítimo. Iluminar o Congresso de amarelo custa pouco e fotografa bem. O que custa caro — e fotografa mal — é outra coisa:

  • Ampliar o acesso ao CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) nos municípios menores
  • Formar e remunerar adequadamente profissionais de saúde mental no SUS
  • Aprovar e financiar políticas públicas com metas, prazos e prestação de contas
  • Manter o CVV (Centro de Valorização da Vida) estruturado e com recursos garantidos

A audiência da CDH é um passo. Mas passo e destino não são a mesma coisa. O Brasil tem histórico farto de audiências públicas que geram relatórios que geram arquivos que geram pó.

O que esperar

O movimento desta semana pode ser o início de algo concreto — projetos de lei, emendas orçamentárias, políticas de Estado — ou pode ser mais um setembro amarelo que vira outubro esquecido. A diferença entre os dois caminhos chama-se vontade política com continuidade, um ativo raro em Brasília, mas não inexistente.

Por ora, o Congresso está amarelo. Que ele permaneça comprometido quando a iluminação especial for desligada.

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